Cristina Mendonça

No início de outubro, o Cor & Estilo aproveitou a vinda da Xongani a Salvador e entrevistou Cristina Mendonça, responsável pela marca. Artesã e filha de artesãos, maquiadora há 25 anos de maquilagem artística, formada em Economia Doméstica e Artes Plásticas, a empresária fala sobre a Xongani, os produtos que produz, seu público, entre outras coisas. Confiram:

Como surgiu a ideia de criar a Xongani?
Sou maquiadora há 25 anos de maquilagem artísticas, atuei em cinema, vídeo, televisão fazendo maquiagem de ferimentos, machucados. A Xongani nasce quando me aposento e começo a dar vazão a um talento que estava parado lá atrás. Aí que entra minha filha Ana Paula, que é designer, faz pós graduação em moda, que trabalha numa x empresa, e a chamo para fazer parceria comigo.
Sempre fui criadora das minhas próprias roupas, nunca usei nada muito comum, comprava as bases no mercado e dava um toque meu. Nesse caminho sempre me perguntava porque não encontrava as coisas que gostava de usar, os tons que queria estar usando. Nisso fui preparando os produtos até aí com tecidos brasileiros, mas ainda não me contemplava. Foi quando tive o contato com os tecidos africanos, que caíram como uma luva na minha mão, pois eram as cores que queria, a textura e a intensidade. Aí falei “opa, então vamos pegar esses produtos que já produzo numa linha de tecidos brasileiros, e trarei essa linguagem para o tecido africano”.
Foi uma aceitação imediata, porque percebemos que foi a necessidade que todas as mulheres negras buscavam para poder realçar mais a sua beleza.

Qual o significado de Xongani?
Xongani, significa enfeite-se, se arrume e fique bonita ou bonitos, numa língua africana do Sul de Moçambique, onde eles falam Xongani. A marca Xongani e o conceito se fortaleceram a partir dos tecidos, quando sinto uma necessidade de não ter mais o meu próprio nome, e vir para um nome que tinha tudo a ver com o significado da nossa proposta de trabalho.

Cristina Mendonca e Newman Costa - Xongani Arte em Tecidos
Cristina Mendonça e Newman Costa

Além da Senhora e seu esposo, (Newman Costa), quem mais é responsável pela Xongani?
Na verdade a Xongani tem três gerações. Minha mãe, que é aquela pessoa que bordava, que tinha um talento artístico manual, vem Ana Paula com toda modernidade, tecnologia formação, tem eu que venho de um mundo de formação, mas que não tenho a linguagem dessa mídia eletrônica tão fortalecida, então e uma união de três pessoas que está dando certo, que tá legal de fazer.

Existe alguma preocupação com o significado das peças que são produzidas?
As peças nascem do desejo pessoal, de toda aquela necessidade que buscamos e não encontramos. A minha filha usa dread, uso black a minha neta tá vindo aí com o cabelo crespo também, então pensamos a cada dia como valorizar mais e mais a beleza dessa mulher negra. É um olhar mesmo, é parar no metrô e imaginar o que poderia ficar mais bonito naquela pessoa, na outra, em mim. E também do apelo das minhas clientes. É loucura as vezes, porque tenho que tomar cuidado com a diversidade de produtos, mas é certeiro, porque elas trazem o norte do que querem e vou buscar.

Qual é o perfil do público da Xongani?
O meu público hoje são mulheres. A Academia é muito forte como público, pois são pessoas que hoje em dia tem a preocupação da valorização beleza da mulher negra, da estética da mulher negra, e quando falo de estética falo de corpo, falo de visual, de aparência cada um com seus corpos, cada um com seu tamanho. Prezamos isso, desde a numeração das nossas roupas. É com o olhar para essa mulher que tem peito, que tem bunda e que tem perna. Não é um olhar para essa mulher que passa nas passarelas europeias que não somos nós. É um olhar que vem dessas meninas da Academia.
Vim agora do interior da Bahia e as meninas dizem “já estamos entendendo que dá para usar nossos cabelos, mas e aí? Não tem o que usar, não tem os adereços que corresponde a textura do meu cabelo” porque o cabelo afro ele tem mais volume , então ele precisa de um produto que sustente ele, não é qualquer grampinho que você vai pôr e vai ficar no seu cabelo, e elas falam:“que bom que vocês estão aqui, que tem os acessórios que tem um porquê”.
A gente agora tem uma linha infantil, estou avó oito meses e a gente está vendo a necessidade desse bebê que vem nesse movimento, desses pais que tem essa consciência que não quer mais estampar na camiseta da bebê algum símbolo que não tenha nada a ver conosco, e precisamos dar resposta para esse povo. Vemos a necessidade de estar contemplando vários seguimentos para estar com esse grupo todo com você.
Há cinco anos atendo um grupo que me surpreendeu, que são as meninas que usam alargador, elas queriam usar meus brincos, por conta do tamanho do alargador da orelha, uma delas me desafio, disse que se eu arranjasse uma maneira dela usar meus brincos, seria minha cliente. E desenvolvemos um produto simples, chamado peneirinha, um acessório que se acopla junto ao brinco, que dá até 14mm do alargador, então é um público novo que trouxemos para a Xongani.

Comentou sobre peças para bebês, então a Xongani hoje possui produtos para essa faixa etária?
Hoje já. Eu tenho essa minha Neta, que tem oito meses e com a convivência com ela, quando compramos o enxoval não tinha nada. Fizemos o sling, a decoração do berço, o enfeite que ela vai usar na cabeça, descobrimos que não poderia ser do tecido X pois ficaria mais durinho, então teria que ser Y, agora estamos trazendo essa linha. Outro dia queria por um body nela e os bodys vinham com ursinhos e a gente não queria isso. Implantamos o mapa do continente, de uma menina com a carinha de uma menina negra. Então a gente está vendo que há aceitação, fizemos um turbante para uma criança de meses, uma coisa usável, não uma coisa de vitrine. Proteger a cabeça precisa, mas por que só a touca? A cada dia estamos caminhando nesse seguimento.

Quais são os principais produtos da Xongani?
A porta de entrada da Xongani são os acessórios, brinco, anel, colar, pulseira, faixas. Estamos o tempo todo correndo atrás de trazer adereços usáveis para esse cabelo, esse rosto, esse pescoço, esse braço, essa mão, essa unha, esse pé, para tudo. A gente pensa na mulher como o todo, mas esses são nosso carro chefe. Surpreendentemente as noivas também entraram muito forte. Surpreendente porque a gente lançou uma noiva, esperando uma resposta, e ela foi muito positiva, pois hoje agendamos noiva para o ano inteiro. A noiva nos surpreendeu mostrando o quanto todo mundo não queria mais casar só de branco, o branco com pérolas. Trouxemos a noiva com miçangas, com produtos mais rústicos, que tem mais a ver com a gente, então ficou muito interessante. Depois da primeira noiva, já fazemos quatro noivas por mês, após um ano do projeto ser feito.
Se tem outras pessoas ainda não conheço, mas a gente apresentou um vestido de noiva que da mídia de São Paulo ela foi para todas as mídias. A juventude que está vindo agora com essa conscientização maior, e se auto conhecendo, elas estão buscando sair do trivial e depararam com a Xongani, com os acessórios e tal. Inovamos todo o tempo, não copiamos, as referências de alguns brincos são da minha avó, sempre busco referências da minha história e vou trazendo. Às vezes a pessoa pergunta qual o sucesso da Xongani, o sucesso é que trabalhamos com o que já existi, com referências mas com outras texturas, e que trouxemos para as texturas dos tecidos africanos.

Para o casamento, vocês produzem apenas a noiva?
Abraçamos o casamento todo, a noiva, a madrinha e a daminha, conseguimos garantir esses três grupos. O noivo somente em 2 acessórios, a gravata ou na faixa que ele usa. Já fizemos vários casamentos e de vários seguimentos religiosos, da católica a religiões de matrizes africanas.

Qual a dificuldade de produzir este tipo de moda?
A dificuldade acredito ser a falta de visibilidade da imprensa, colocando você na mídia só no dia da Consciência Negra. Tudo bem que é um dia importante, mas a gente existe 365 dias do ano. E também colocar a moda afro-brasileira como uma tendência, ela não é uma tendência, ela é sim a conscientização da comunidade negra e não negra, dentro de uma cultura que já era nossa e que perdemos porque disseram que era feia e agora a gente se apoderou para dizer que ela pode estar em qualquer lugar.
Então a minha preocupação mesmo é que a mídia não venha nos colocar somente um dia, é colocar para que a gente tenha visibilidade o tempo todo e todo o ano. Porque temos hoje profissionais, produtos para estar na mídia a qualquer momento. Fazemos esse trabalho de formiguinha, percorremos as capitais do sul, o norte e o nordeste, para poder dizer que a Xongani existe, a Xongani está aí. Não temos uma preocupação só de vender,nos preocupamos em vender, atender, em mostrar a ideologia do projeto, o porque ele existe,a marca não existe de uma casualidade que acha que somos moda, a Xogani existe porque existe uma militância, uma conscientização.
Desde sempre usei o cabelo natural, minha filha também, até brinco com ela, “posta umas fotos sua quando eu já fazia enfeites na sua cabeça, porque agora você é mãe e vão achar que isso do bebê é só de agora e isso é de muito tempo atrás”, minha preocupação é essa de entrar na mídia sem ser os coitadinhos e sem ser apenas na semana da Consciência Negra.
A Xongani vem o tempo todo respeitando todos os profissionais que encontramos e acredito que isso também é um ponto forte no sentido de nós termos o nosso amar, todos os seguimentos podem estar juntos, temos que fortalecer isso na nossa comunidade, passou aquela época que só cabia um em cada evento, hoje cabem mil. Precisamos nos fortalecer enquanto grupo, enquanto propostas de trabalho para que ocupemos cada vez mais os espaços com a fortaleza que nós somos.

Gostaria de deixar alguma informação adicional para finalizarmos a entrevista?
Agradeço a vocês, eu e a Ana Paula gostamos de falar. Não consigo pensar na Xongani sem essas três gerações, minha mãe Julia, Ana Paula e eu Cristina, e vindo a quarta que é Ayoluwa (em yorubá significa Alegria da nossa família), que também é mais uma criança que terá a liberdade de escolha profissional, mas que eu quero que ela carregue com ela essa verdade, essa transparência, e essa garra que é você se colocar no mercado capitalista, se colocar num mercado que a gente ainda está aprendendo a negociar, que é uma condição muito recente para todos nós, mas que é possível fazer tudo isso com muita dignidade.

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3 thoughts on “Cristina Mendonça”

  1. Sou consumidora Xongani a alguns anos…os brincos são meus favoritos. São lindos e representam quem sou e o que eu visto. Africanidade pura…

  2. CONHECI A CRISTINA EM PARATY, ME ENCANTEI COM AS PEÇAS, A SIMPATIA DA CRISTINA TAMBÉM É DEMAIS. COMPREI UM TURBANTE QUE FORMA UMA FLOR.MAS PESSOAS DE CABELO LISO PODEM USAR ?

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